Desenvolvimento assistido por inteligência artificial reduziu o tempo e o preço de produzir sistemas sob medida, enquanto o modelo de assinatura corporativa seguiu a trajetória inversa. A equação que orientou a decisão entre comprar e construir na última década perdeu validade, e poucas empresas refizeram a conta
A equação da última década
A decisão entre comprar software pronto e construir uma solução própria foi resolvida, na maior parte do mercado corporativo da última década, por uma razão econômica direta: desenvolver era caro, lento e arriscado. Assinar era previsível. Essa assimetria sustentou o crescimento do modelo de software como serviço e produziu o padrão que hoje organiza a maioria das operações, com dezenas de fornecedores externos e poucos sistemas próprios.
Para Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa, essa equação continua orientando decisões, mas as duas variáveis que a sustentavam andaram em direções opostas: produzir software ficou mais barato e mais rápido, e alugá-lo ficou mais caro e menos previsível.
O que mudou no custo de construir
O que mudou de patamar foi o custo de produzir software. Análise do Goldman Sachs publicada em março de 2026 aponta que, no agregado da economia, ainda não há relação significativa entre adoção de inteligência artificial e ganho de produtividade. Em dois domínios específicos, no entanto, o resultado é claro: empresas que implantaram IA em suporte ao cliente e em desenvolvimento de software relataram ganho mediano de cerca de 30%. Desenvolvimento é justamente a variável que definia o custo do lado do construir.
Para Friol, a consequência é que a comparação usada hoje pela maioria dos comitês de tecnologia foi calibrada para um cenário que não existe mais. O parâmetro de referência ainda é o projeto de múltiplos trimestres, com equipe dedicada e risco alto de não entregar. Para escopos bem delimitados, esse parâmetro caiu para semanas.
“A empresa compara o preço da assinatura com a memória que ela tem de quanto custava desenvolver em 2021. Não é o mesmo número, não é o mesmo prazo e não é o mesmo risco”, afirma Friol.
O executivo faz uma ressalva técnica que considera decisiva para a leitura correta do dado. A queda de custo se aplica a sistemas de escopo definido, com regra de negócio clara e integração conhecida, não a plataformas complexas de uso geral. Construir um fluxo que lê pedidos, aplica a política comercial da empresa e devolve uma proposta é hoje um projeto de semanas. Construir um sistema de gestão empresarial completo continua sendo um projeto de anos, e continua não fazendo sentido.
Escopo definido, nesse sentido, é aquele em que a empresa consegue descrever a regra antes de começar: quais dados entram, que critério se aplica, o que sai e para qual sistema vai. Costuma ser o caso de fluxos que hoje dependem de planilha, de troca de e-mail ou de etapas manuais entre dois sistemas que já existem. É nesse tipo de processo que o ganho de produtividade no desenvolvimento se converte em prazo e orçamento menores.
O que mudou no custo de alugar
Do outro lado da equação, o preço do aluguel seguiu direção oposta. Levantamento da FinOps Foundation indica que o orçamento anual médio de inteligência artificial de uma grande empresa passou de US$ 1,2 milhão em 2024 para US$ 7 milhões em 2026. Parte relevante do mercado de software corporativo migrou de licenciamento por usuário para modelos com componente de consumo, o que transferiu para o cliente uma variável de custo que ele não controla nem projeta. A Gartner estima que sistemas agênticos consomem de 5 a 30 vezes mais tokens por demanda do que um chatbot convencional.
A mudança de modelo altera a natureza da despesa. Na cobrança por usuário, a conta crescia com o número de pessoas que usavam a ferramenta. Na cobrança por consumo, cresce com o volume de uso, e o uso tende a aumentar justamente quando a ferramenta funciona e passa a ser adotada por mais áreas.
A combinação produz um deslocamento que ainda não se refletiu no comportamento de compra. O custo de construir caiu porque a produção de software ficou mais barata e mais rápida. O custo de alugar subiu porque a precificação passou a acompanhar o volume de uso. Na leitura de Friol, as duas curvas se cruzaram em algum ponto dos últimos 24 meses, e boa parte das decisões de contratação continua sendo tomada com a hierarquia anterior.
“Não estou dizendo que toda empresa deveria construir. Estou dizendo que a conta que justificava não construir precisa ser refeita, porque as duas variáveis andaram”, diz o executivo.
Por que a conta ainda não foi refeita
Refazer essa conta esbarra em um obstáculo que não é técnico. Projetos de compra têm dono claro, prazo curto e aprovação simples. Projetos de construção exigem definição de escopo, envolvimento das áreas de negócio e manutenção posterior. Mesmo quando o cálculo favorece construir, o caminho institucional favorece comprar, o que ajuda a explicar por que o mercado demorou a reagir a uma mudança de custo dessa magnitude.
A revisão também não exige transformar o portfólio de uma vez. Um ponto de partida é o inventário: listar os sistemas pagos por assinatura, separar o que é igual em qualquer empresa, que tende a continuar na assinatura, do que carrega a regra própria do negócio e, só para esse segundo grupo, comparar o custo de 36 meses de aluguel, com a parte variável incluída, com o custo de construir e manter a mesma função no prazo de hoje, e não no de 2021.
Quando o número volta para a mesa
O ponto de inflexão, na avaliação de Friol, tende a vir do lado financeiro, não do técnico. Quando a despesa variável de inteligência artificial passa a aparecer com destaque no orçamento e sem previsibilidade, a pergunta sobre o que faz sentido manter sob contrato deixa de ser uma discussão de arquitetura e vira uma discussão de margem. Nesse momento, o custo de construir volta para a mesa, e desta vez com o número atualizado.
A pergunta útil nessa conversa não é se a empresa deve construir, e sim quais funções ela ainda aluga por hábito, e não por conta feita. É nessa lista que o número atualizado faz diferença.





